
Questões cotidianas e Zatoichi
Por Luciana Kobayashi
Eu
tenho um namorado que gosta de cinema. E isso é um
ótimo começo. Ao mesmo tempo, as nossas preferências
não são absolutamente harmônicas (nenhuma
novidade até aqui). Ainda assim, eu não sou
obrigada a assistir apenas a cenas recheadas de tiros e corpos
voando para todos os lados. Na outra ponta, ele também
não é intimado a ver nenhum tipo de filme dito
“cabeça”. Ou seja, gosto é gosto,
não se discute. Mas (luz no final do túnel)
sempre é tempo de conhecer o desconhecido e, o melhor,
gostar.
Vida a dois e telona. Há uma fusão aí
e acredito que não seja assim só para o meu
amor e eu, porque o cinema, para quem aprecia, faz parte do
cotidiano. Para nós dois, sempre fez, mesmo antes de
nos conhecermos, como um dos nossos mais sagrados entretenimentos.
E isso não fica somento no quesito diversão,
é um pouco o sonho que a gente tem na cabeça
e consegue ver concretizado, é aquela história
que a gente gostaria de ver contada de alguma forma e contam,
é o desconhecido que fica, então, acessível.
Mas voltando às questões de nossas diferenças,
firmamos um pacto democrático: filmes alternados para
agradar gregos e troianos.
E não é que nessa troca de figurinhas, o saldo
ficou positivo para o meu lado? A surpresa boa ou a tal da
luz no final do túnel é Zatoichi, do
diretor japonês Takeshi Kitano.
Sim, ouvi falar muito de Kitano, mas nunca tive uma vontade
irresistível de conhecer seu trabalho e... maravilha.
Kitano dirige e atua, muitíssimo bem, nesse filme,
que se passa no Japão (século XIX). Ele faz
Zatoichi, um andarilho cego que ganha a vida como massagista
e jogador de cartas. Mas sua aparência humilde oculta,
na verdade, um exímio samurai. Ao chegar a uma aldeia
dominada pelo bandoleiro Guinzo (Ittoku Kishibe), seu destino
se entrelaça a duas gueixas que querem vingar a morte
do pai, um samurai que trabalha como assassino e outros tipos
cômicos que interagem muito bem com os personagens dramáticos.
E aí está uma das maiores qualidades do filme:
a mistura de momentos dramáticos/violentos a outros
bem-humorados. Sim, o sangue jorra bastante, com a ajuda de
efeitos visuais, mas digamos que ele tem a sua estética,
sua função, enfim, seu mérito. A isso
somam-se ainda um roteiro bem-feito, que mantém a atenção
do espectador ao longo de toda trama, e um final criativo
e imperdível.
Isso significa que, mesmo com lutas e mortes, saí leve
do cinema e bastante satisfeita, talvez esse seja o verdadeiro
mérito de Kitano. Posso ser suspeita porque não
conheço o resto de sua obra, mas assistir a Zatoichi
não deixou de ser um apetitoso convite.
Ainda em clima asiático, neste último final
de semana, o meu amor pegou na minha mão e lá
fomos, correndo, ver Herói, do diretor chinês
Zhang Yimou. Mas essa experiência eu conto depois.
Luciana Kobayashi é jornalista e autora do blog www.ventaniadepalavras.blogspot.com
Ficha Técnica Zaitochi
Direção:Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano, Michiyo Ookusu, Gadarukanaru Taka,
Daigorô Tachibana, Yuuko Daike, Tadanobu Asano,
Yui Natsukawa, Ittoku Kishibe, Saburo Ishikura, Kohji
Nacionalidade: Japão, 2003
Duração: 115min
Gênero: Ação |
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